“Existe uma forma de arte que é feita por pessoas especiais, que nasceram com uma capacidade invulgar de dar vida a objectos inanimados, essas pessoas por vezes criam magia fazendo crer a todos os que as observam, que tudo é real dentro do seu teatro. Este teatro tão especial, a que muitos chamam de teatro de marionetas, não é mais do que o nosso mundo retratado por alguém com uma percepção aguda da realidade. A união destas pessoas, e das que as observam é um processo natural, visto que ambas acreditam nesta realidade paralela, mas real, que é o mundo dos bonecos.”

José Manuel Valbom Gil

José Gil

Sempre ouvi dizer que o teatro tradicional de marionetas é um “escape do povo”.

Quererá esta afirmação, dizer que o que o povo pensa está retratado sem qualquer censura na dramaturgia utilizada no teatro de marionetas tradicional? Eu acredito que sim. Analisemos a dramaturgia no espectáculo tradicional de Inglaterra o Punch and Judy onde Mr. Punch fica a cuidar do Bébé e como, por não saber ou não querer mais esta tarefa, se cansa dele e o transforma em salsichas ou o lança para o público com um pau descarregando assim todo o stress. Outro exemplo acontece no teatro tradicional de marionetas em Portugal. O herói Dom Roberto na peça o Barbeiro não quer pagar depois de lhe ter sido feita a barba pois acha que é muito caro e que está a ser roubado pelo barbeio acabando finalmente por matá-lo, fazendo assim justiça pelas próprias mãos.

Este tipo de soluções dramáticas podem-se encontrar em todo o teatro tradicional do mundo. Estes descompressores emotivos são a fórmula de sucesso que mantém até hoje o teatro tradicional vivo. Pois é o que o público gosta e quer para se sentir ligado emocionalmente. Este reflexo humano no teatro de bonecos cria uma simbiose quase perfeita entre as duas partes envolvidas: o espectador e o marionetista. Talvez por isso esta forma de apresentar teatro seja de tão fácil absorção.

Mas como é que uma formula tão simples, se transforma em algo que nos dias de hoje, por vezes não entendemos? Nos últimos dois séculos vimos crescer novas vagas de dramaturgia aplicada ao teatro de marionetas. Estas novas correntes de pensamento aplicado à dramaturgia em marionetas, leva-nos para um patamar de reflexão como espectadores como nunca existiu na história da marioneta.

José Gil

Se é certo que a percepção de um espectador se transforma com o passar do tempo. O mesmo se aplica a quem apresenta/cria o espectáculo para satisfazer o espectador. E aqui é que esta simbiose por vezes falha. Vejamos a tendência cada vez maior de actores se transformarem em marionetistas apresentando, por vezes, trabalhos medíocres pois não têm o know-how dos marionetistas para o fazerem. Veja-se as criações do “novo” teatro de objectos nas quais na maior parte das vezes ficamos sem perceber o que é a marioneta no meio de tanta loucura estética. Claro que existem bons exemplos em ambos os casos. Mas são muito poucos. Acredito que qualquer objecto manipulado com “alma” se torne numa marioneta com vida. Um Objecto deve ser tratado como ele é e não tentar transformá-lo em boneco. Dar-lhe vida, transmitir-lhe vida, conseguir que o espectador veja na marioneta um ser pensante. É isto que um marionetista faz.

José Gil

Ainda hoje me surpreendo com a simplicidade dramática do teatro tradicional de marionetas. As rotinas simples como o aparecer por de trás de uma personagem com a intenção de lhe bater, mas não bate, só ameaça bater. Faz estimular o cérebro do espectador de tal forma que este reage de maneira espontânea na tentativa de proteger a vítima. Esta aparente simplicidade com resultados sempre bem sucedidos, apurada ao longo de vários séculos, dá-lhe um estatuto de referência copiado pelas novas formas de apresentar teatro de marionetas.

O reflexo que o espectador sente nesta simplicidade, muitas vezes desaparece nas novas formas de apresentar teatro de marionetas. Onde não é esse reflexo que se pretende estimular no espectador. Mas sim que o espectador desperte para novas consciências através de todos os seus sentidos. A mensagem ou a ausência dela nas peças do teatro de marionetas moderno cria no espectador estímulos diferentes das fórmulas tradicionais, educando-o. Um novo espectador, um espectador moderno, como o próprio teatro.

O sucesso destas “experiências modernas” só será medido com o passar do tempo. Já assistimos desde há muito tempo o descontrolo na arte moderna, onde os objectos comuns como uma “sanita” ou um “vaso” com uma assinatura passam a ser “arte”.

Chegamos a uma realidade a meu ver estranha e talvez perigosa. O espectador deixou de ser em muito casos, o centro reflector do espectáculo. Podemos estar a matar o teatro sem nos apercebermos. O público tem de gostar e ter vontade de voltar. É ele que alimenta toda a estrutura teatral. A substituição do público por um rendimento garantido (público ou privado) pode levar ao esquecimento do objectivo principal de se apresentar teatro. O espectador.

Sem o espectador não existe teatro. Sem marionetas, não existe teatro de marionetas.

José Manuel Valbom Gil1

José Gil

1 Nasceu em Alcobaça em 1968. Mestre em Teatro ramo actor-marionetista pela Universidade de Évora. É Presidente da UNIMA – União da Marioneta Portuguesa desde 2009.

Na área do Teatro de Marionetas teve formação com Manuel Dias, Isabel Andréa, Francisco Esteves, Isabel Alves Costa, João Paulo Cardoso, Michel Broquin, Christian le Diourom, Dan Bishop, Glyn Edwards, Jean Luc Courcuolt.

Fundou a companhia S.A.Marionetas – Teatro & Bonecos onde desempenha funções de direcção artística e produção desde 1997. É autor de 31 textos dramaticos para teatro de marionetas. É Director Artístico do Festival Marionetas na Cidade desde 1998.

É autor do Livro Teatro Dom Roberto – o teatro tradicional itinerante português de marionetas – O Saloio de Alcobaça e os novos Palheta, editado pelo Museu da Marioneta de Lisboa. Tem publicado vários artigos em publicações ligadas ao teatro de marionetas e é co editor da revista UNIMA Portugal Magazine.

Já juntou marionetas com diferentes artes como a dança contemporânea, a ópera e a música experimental. Trabalhou ainda com a companhia Royal de Luxe (França) e com Clive Chandler em Inglaterra.

Em 2010 Recebeu o prémio – Preservação e continuidade do teatro de marionetas em Praga.

Em 2012 recebeu o prémio “Award of puppetry festival participation” 21º UNIMA congress & world puppet festival – Chengdu – China.

Nomeação para melhor produção para a infância no international award “Golden Gander” Kremnické Gagy – Eslováquia.

Em 2013  Prémio – “Alcoa d´Ouro” – Cultura.

Nomeação para melhor espectáculo de rua no Wayang World Puppet Carnival – Jakarta – Indonésia. 2013

Prémio – Melhor espectáculo tradicional de marionetas de rua no Wayang World Puppet Carnival – Jakarta – Indonésia. 2013

Prémio – “Best Traditional Show”  Harmony World Puppet Carnival – Bangkok – Tailândia -2014

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