A ideia de construir o maestro marioneta de fios, surge da forma mais imprevisível que se possa pensar. Na altura, trabalhava nos serviços culturais da Câmara de Évora e, com dois colegas de trabalho, deslocamo-nos a Barcelona para visitar uma feira de divulgação de material de animação e promoção de eventos culturais. Num dos momentos de lazer, naturalmente, deslocamo-nos à La Rambla, uma das muitas zonas turísticas desta cidade, ela sim, de uma respiração ofegante de cultura.

Daniel Loeza
Daniel Loeza en las Ramblas. Fotografía de Manuel de Costa Dias.

Estávamos a 23 de Novembro de 1996, lembro-me que era fim de tarde e que pouco depois de começar a subir a Rambla, polvilhada dos mais variados artistas de rua, acrobatas e vendedores dos mais diferentes produtos, misturados com bancas de revistas e de flores, cafetarias, restaurantes de calçada, vislumbrei um marionetista que manipulava uma marioneta de fios, uma rã, e que me impressionou particularmente pela facilidade e maestria com que mexia as mãos e os dedos. A rã era uma pianista que tocava magistralmente no seu piano as peças de música que o auditório ouvia. A impressão foi muito forte e o desafio de tentar fazer algo parecido foi um desejo que se instalou e que cresceu de tal forma em mim que se tornou imperioso concretizá-lo. Nesse mesmo dia, ao jantar, ao balcão de um pequeno restaurante muito perto do sítio onde tinha assistido à performance da rã pianista, fazia num guardanapo de papel o primeiro esboço do que veio a ser o maestro apesar de no início ter pensado num ilusionista.

Daniel Loeza
Mando de Daniel Loeza. Fotografía de Manuel de Costa Dias.

De referir ainda que na altura o marionetista me pareceu de origem asiática reforçado este raciocínio pelo tom de pele moreno, estatura pequena, e pelo comando a partir do qual manipulava a marioneta, muito estanho e elaborado.

Soube posteriormente que o manipulador da rã pianista se chama Daniel Loeza e que é originário do México, do estado de Yucatan.

Após este primeiro impulso, veio a reflexão. Como iria eu conseguir que as mãos do maestro se movimentassem com a ligeireza e agilidade das mãos da rã pianista? Como conseguiria que as mãos do maestro se movimentassem ao mesmo tempo sabendo que eu só teria uma mão para o fazer pois a outra minha mão teria por função segurar o comando que faz o caminhar, mexer os olhos e, descobri posteriormente que também pode deslocar o olhar dado pelo movimento da cabeça.

Dibujo de Manuel de Costa Dias
Dibujo de O Maestro, de Manuel de Costa Dias.

Estas eram as primeiras preocupações reflexivas.

Na prática tive que esboçar o corpo, decidir em quantas partes o dividir e esculpi-lo em madeira. Para a cabeça utilizei a madeira de nogueira pelo acabamento que se consegue, para o resto do corpo foi a madeira de cedro branco e amieiro. Misturados com os golpes de goiva e com a lixa as ideias iam surgindo, sendo recusadas umas e aceites outras. As etapas seguintes foram as articulações entre as várias partes do corpo e a preparação do interior da cabeça para a colocação dos olhos. No corpo foram localizados os pontos donde partiriam os fios e após a pintura das partes que iriam ficar visíveis juntei todas as partes do corpo com um fio de elástico que percorre todo o corpo.

Dibujo de Manuel de Costa Dias
Dibujo de O Maestro, de Manuel de Costa Dias.

O elástico dá ao boneco um movimento solto e livre por oposição ao que se verifica normalmente nos bonecos de articulações com eixos que têm movimentos rígidos e automatizados.

Dibujo de Manuel de Costa Dias
Dibujo de O Maestro, de Manuel de Costa Dias.

Montado o corpo empunha-se concretizar as ideias entretanto surgidas para o comando. As mãos são no maestro o elemento mais forte e por isso na construção foi propositado o tamanho desproporcionado que elas assumem em relação ao resto do corpo. Também o comando tem no que se refere às mãos parte importante dedicada à sua manipulação. A mão esquerda do manipulador praticamente só manipula as mãos da marioneta não o fazendo momentaneamente quando a marioneta se encontra de costa para a assistência e, bate as abas de grilo do casaco para voar.

O Maestro, de Manuel de Costa Dias
Mando de O Maestro, de Manuel de Costa Dias. Fotografía de T.R.

É um comando vertical com 38 fios pensado para realizar as ações que entretanto a música escolhida sugeriu. Para chegar ao comando final impus-me fazer um primeiro ensaio, de forma rudimentar fui fixando a uma vara vertical varas horizontais e ensaiando fios que partiam do comando para o boneco. Fui decidindo o que parecia estar bem ou mal e que respondia ao que desejava, o que no fundamental era manipular as mãos separadamente ou ao mesmo tempo e conseguir o andar. Por acréscimo surgiram muitos outros movimentos que continuo a explorar e que têm enriquecido muito a prestação do boneco.
O Maestro, de Manuel de Costa Dias
O Maestro, de Manuel de Costa Dias. Fotografía de T.R.

Ele anda, movimenta a cabeça, pisca os olhos, tem diversos jogos de movimentos com as mãos, bate as abas de grilo, voa, ajoelha-se e possivelmente terá muitas outras capacidades que eu ainda não fui capaz de descobrir. Digo-o porque muito recentemente lhe descobri mais um movimento, situação que se tem repetido ao longo destes 11 anos. A construção demorou cerca de dois anos, mas com muitas paragens e períodos para pensar e decidir.

O Maestro, de Manuel de Costa Dias
Dibujo de Manuel de Costa Dias.

Hoje, o maestro, cada vez se sente mais com os pés assentes no chão embora ao reger o voo do moscardo não prescinda de um curto voo, coisas que só aos bonecos é dado fazer.

Manuel de Costa Dias.
Director de la compañía Trulé, Projecto de Investigação de Formas Animadas. Évora, Portugal
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